terça-feira, 30 de setembro de 2008

Comunicação à velocidade da luz

Comunicação à velocidade da luz

Por Fabio Reynol

“O que foi que Deus arrumou?” Esta pergunta entrou para a história em 2 de maio de 1844 quando foi possível percorrer 65 quilômetros entre as cidades de Washington e Baltimore à velocidade da luz. O telégrafo, uma patente recém-registrada pelo norte-americano Samuel Morse, inaugurou naquela data o mundo da comunicação instantânea. A invenção gerou a dissociação do transporte com a comunicação de uma vez por todas e foi o gatilho de outras tecnologias que aumentaram o tamanho e o alcance das mensagens e, para alguns, encolheram o planeta.

Há quase dois séculos daquela transmissão, somos os herdeiros de suas conseqüências, entre elas, o aparato tecnológico que inclui as redes de alta velocidade (com e sem fio), os satélites, as fibras óticas, as antenas, os transmissores, os computadores e até os programas que gerenciam e movimentam as informações. Toda essa parafernália, cujo representante mais popular é a internet, foi batizada de Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) e seu advento ainda está mudando a nossa sociedade, nossa economia, cultura, maneira de interagir com o mundo e de entendê-lo.

Um dos impactos mais visíveis das TIC é a incapacidade humana de absorver o imenso oceano de informações que essas novas máquinas proporcionam. Em 2003, dois pesquisadores da Universidade da Califórnia, Peter Lyman e Hal Varian, calcularam que a internet armazenava cerca de 170 terabytes de informação. A quantidade equivale a 17 vezes o acervo impresso da maior biblioteca do mundo, a do congresso norte-maericano (Library of Congress).

Tanta informação mais frustra do que sacia as nossas necessidades, como aponta o pesquisador em ciência da informação, Cláudio Henrique Schons, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Um usuário, ao efetuar uma pesquisa na internet, tende a ficar mais frustrado pelo excesso de ‘respostas' que pela falta delas”, afirma Schons, autor do trabalho “O volume de informação na internet e sua desorganização: reflexões e perspectivas”.

O jornalista e empresário John Browning chegou a comparar a internet às bibliotecas mantidas pelos monges durante a Idade Média. Os monges eram os guardiões do conhecimento registrado nos livros mas, segundo Browning, assim como na internet de hoje, eles necessitavam de um sistema de organização para que esses impressos pudessem ser encontrados mais tarde. “Soterrados sob uma inundação de informações, os usuários de hoje têm consciência de que precisam classificá-las e interconectá-las, mas não conseguem nem controlar o seu fluxo, nem impor uma ordem”, explica o jornalista.

 

 

Cegueira informacional

Por isso, ironicamente, o efeito do excesso de informação seria a desinformação. De acordo com o filósofo e arquiteto francês Paul Virilio, conhecido por seus trabalhos sobre as novas tecnologias de comunicação e os efeitos da velocidade sobre a sociedade, há “uma temível ameaça de cegueira” provocada por um “descontrole de nossa relação com o real”. O produtor cultural Leonardo Teixeira de Mello, que estudou a obra de Virilio para uma pesquisa em Comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que não há como o usuário gerir essa quantidade enorme de dados.

Outro efeito que a moderna infra-estrutura da informação proporcionou foi o surgimento de grupos sociais antes impossíveis. “As comunidades virtuais – explica Mello - são espaços novos que só puderam surgir devido à velocidade da transmissão de dados”. Graças a essa conquista tecnológica, conceitos como de distância e fronteira estão mudando. “Perdeu-se a noção geográfica de perto e longe - conta Mello - pois esses termos não estão mais relacionados a espaços geográficos”. Baseado nisso, Virilio criou a idéia de “telecontinente” para delimitar as fronteiras virtuais que substituem as geográficas nas comunidades formadas nas redes de computadores. O pensador francês também é pai da expressão “cronopolítica” usada para designar as ações políticas que se baseiam na velocidade.

fast-food da informação

As seqüelas desse novo mundo da informação paquidérmica e veloz recaem não só sobre os que a recebem, mas também sobre quem a produz. Foi o que averiguou a jornalista e pesquisadora em comunicação social, Thaís de Mendonça Jorge, da Universidade de Brasília (UnB). Ela aplicou ao jornalismo o termo McDonaldização criado pelo sociólogo norte-americano George Ritzer. No livro A McDonaldização da sociedade, Ritzer conta como a rede de refeições rápidas tornou-se um modelo de organização para a sociedade moderna e os conseqüentes danos que esse padrão tem causado. No artigoMcDonaldização do jornalismo: o discurso da velocidade, Jorge e outra pesquisadora relatam os efeitos da chamada “ditadura da velocidade” na produção jornalística.

“O primeiro efeito é a pasteurização da notícia - explica Thaís - com poucos recursos e muito trabalho, os jornalistas não têm tempo de apurar, nem de conferir as notícias que recebem das agências”, afirma. O resultado é a publicação de textos praticamente idênticos em diferentes órgãos de imprensa. No trabalho, as pesquisadoras dão como exemplo uma matéria publicada pelo órgão oficial de imprensa do governo, a Agência Brasil, sobre o fim de semana do presidente da república. O texto foi publicado praticamente sem alterações nas versões eletrônicas do Jornal do Brasil e da Folha de S.Paulo.

Sem o devido tempo para a averiguação das informações, outra conseqüência previsível é a reprodução de erros. “O que antes chamávamos de jornalismo diário, hoje ganhou o nome de jornalismo minutista, porque o profissional tem que produzir textos em questão de minutos”, declara Thaís Jorge. Assim, os erros não só passam batido como são espalhados à mesma grande velocidade da notícia. Tudo isso, porque as notícias são trabalhadas como qualquer outro bem de consumo. “O irracionalismo da ânsia pela velocidade, por considerar a rapidez condição de sobrevivência e de lucratividade, transforma os jornalistas em trabalhadores de uma linha de montagem semelhante às de Ford e Taylor no início do século XX”, explica a pesquisadora.

Transformar jornalistas em operários de uma linha de produção é apenas uma parte das conseqüências das TIC no capitalismo contemporâneo. Para muitos analistas, a chamada economia eletrônica ou virtual, é o principal catalisador do sistema produtivo e financeiro de hoje.

Em seu último relatório, publicado em março deste ano, a Comissão Européia revelou que as TIC foram responsáveis por quase 50% do aumento de produtividade da economia européia entre 2000 e 2004. As TIC não só representam um novo jeito de se produzir e de vender, como são indispensáveis hoje à economia moderna. O economista da Universidade Mackenzie, Francisco Cassano, explica que na década de oitenta eram necessários dois dias úteis para fazer uma transferência bancária internacional e ainda não havia meios de conferir a operação. “Hoje é possível fazer isso apertando a tecla ‘enter' do computador”, compara Cassano.

O dinheiro sai do papel

O economista constata que os males econômicos também viajam mais rapidamente. No início de outubro, uma queda da bolsa de valores de Pequim foi refletida nas demais bolsas do mundo no mesmo dia útil. “Em 1982, quando o México enfrentou uma grande crise financeira - relembra Cassano - a Argentina foi afetada pela mesma crise apenas por volta de 1984, e o Brasil só foi senti-la em 1987”, diz ele.

”A velocidade também tem afetado as relações comerciais em geral. Um consumidor iraniano consegue saber o que um cidadão consome na Bahia - exemplifica ele - com isso a concorrência se acirra e é muito mais rápida”. Ao analisar a economia eletrônica, a Comissão Européia constatou que as TIC reduzem, nesse aspecto, o impacto econômico da distância e os custos do acesso à informação, alargando, assim, as possibilidades de concorrência.

Muitos já perceberam que os talões de cheque têm durado muito mais graças ao advento do cartão de débito. No Japão, celulares são utilizados para os mais corriqueiros pagamentos desde bilhetes eletrônicos de metrô, a máquinas de refrigerante e compras em lojas. Para que as transações eletrônicas confiáveis se tornassem uma realidade, porém, foi preciso toda uma tecnologia e uma infra-estrutura de comunicação que fosse veloz e inviolável. Por isso, graças às TIC, nós vemos cada vez menos a cor do nosso próprio dinheiro.

Um mundo sem papel moeda seria possível? Para Cassano, sim, contudo seria muito mais arriscado. “Em caso de uma crise grave a primeira coisa que fazemos é correr ao banco e pegar o nosso dinheiro”, diz o economista. “Se o colocamos no colchão podemos perder o seu valor de face, mas mantemos o seu valor intrínseco. Numa economia 100% virtual o dinheiro poderia virar pó com muito mais facilidade,” alerta.

Techno-apartheid

Apesar de toda essa revolução tecnológica, é bom lembrar que o admirável e paladino mundo das tecnologias da informação e da comunicação não é tão globalizado quanto se vende. A empresa de pesquisas JupiterResearch prevê que em 2011 a internet deva atingir apenas um quinto da população mundial, cerca de 1,1 bilhão de pessoas. Se considerarmos que a grande maioria desses plugados estará nos países ricos e nas camadas mais privilegiadas do restante do globo, veremos o abismo social mundial reproduzir-se e crescer com o mundo digital.

Em uma sociedade com atividades importantes galgadas no ambiente virtual, estar fora dele equivale a estar privado do exercício da cidadania. É o que o economista italiano Ricardo Petrella da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, tenta definir com o termo techno-apartheid. Petrella escreveu em seu livro Vers un techno-apartheid (Rumo a um techno-apartheid, ainda não traduzido para o português): “Assistimos à emergência de um arquipélago de cidades/regiões ricas, hiper-desenvolvidas nos planos tecnológico, industrial e financeiro, no oceano de uma humanidade cada vez mais pobre.”

 

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Papel dos jornais diante das novas mídias

O blog Periodistas 21 é mais uma boa opção de discussões sobre o futuro do jornalismo e o papel das novas mídias. Nele o jornalista e consultor de mídias espanhol Juan Varela apresenta alguns textos interessantes e que interessam bastante no debate desenvolvido em nosso blog. Confira um texto postado no dia 25/08/08.

 

La reinvención de los diarios

Todos los periodistas consultados por Ana Carbajosa para El País coincidimos: la era de la prensa tal como la conocemos se ha acabado.
"Si en algo coinciden los expertos es en que no todos los periódicos morirán. Pero también en que todos deberán transformarse para sobrevivir en una era en la que la gente, más que nunca, quiere leer historias, aunque no en los formatos que han dominado la prensa 300 años. Hay que ponerse manos a la obra ante un cambio que, dicen, no tiene por qué ser a peor".
Manos a la obra ante un cambio de paradigma que afecta al propio periodismo, a su negocio y está cambiando el ADN informativo de la propia sociedad. Por primera vez en la historia la información es abundante. Acabó la escasez. Nunca tanta gente ha tenido acceso a la información por tantos medios ni estos han sido más numerosos. La comunicación es un commodity, una materia prima de bajo coste, pero también un nuevo bien común y el nuevo escenario digital no es sinónimo de mayor calidad informativa.
El Periodismo 3.0 es una realidad con nuevas oportunidades y con la amenaza del sutil control 2.0 de la información. La interfaz sustituye a menudo al contenido y la ilusión vital denunciada por Baudrillard, Zizek o Enzensberger estrangula a menudo la realidad.

¿Qué deben hacer los diarios para sobrevivir?
Es la pregunta que cada día nos hacemos periodistas, editores y muchas personas relacionadas o interesadas en el periodismo y el negocio de la información. El negocio de la información en internet crece demasiado despacio y se reparte entre más medios. Pero además se invierte muy poco dinero del nuevo negocio digital en información de calidad.
La pregunta no es si la prensa puede sobrevivir, sino cuál es el nuevo modelo de negocio necesario para la producción de información de calidad. Que viva o no el papel es irrelevante. Lo importante es que acaba una era en la que los diarios han liderado la producción de información de calidad. Las televisiones sólo lo han hecho muy parcialmente y la mayoría nunca han conseguido la potencia informativa de los grandes diarios. Y en un negocio donde la verdadera libertad de información ha pertenecido sólo a quienes tenían los recursos financieros para pagarla. 
Unos lo han hecho con mayor independencia y responsabilidad social que otros, pero los últimos años, con la explosión de la convergencia multimedia, sus necesidades financieras, la concentración de medios y el hambre insaciable de los inversores por las rentabilidades desmesuradas han erosionado la credibilidad de los medios y su capacidad para invertir en innovación, tanto económicamente como en predisposición profesional.
Pero esa era acaba. Bienvenidos a otra de nuevas oportunidades y, como siempre, grandes desafíos y unas cuantas víctimas.
Más allá de los diagnósticos explicados en el artículo citado y en tantos otros, algunas ideas clave que guían mi trabajo sobre el futuro de la información y los medios.

Información
La información de calidad sigue siendo un bien escaso cuya producción necesita trabajo, dedicación, inteligencia, tiempo y acceso a las fuentes. El entorno digital aporta muchos elementos para satisfacer cada una de esas necesidades y el periodismo debe adaptarse a una nueva forma de trabajo donde más personas, más fuentes y el acceso a más documentación deben enriquecer la información. El periodismo de calidad seguirá siendo un bien estimable y un buen negocio.
Oportunidad: más importante que nunca. La dimensión temporal de la información siempre ha sido clave para su influencia y penetración. Ahora, además, la sincronía digital y el acceso a través de buscadores, agregadores y redes sociales altera los tiempos informativos y su manejo para conseguir la mayor visualización pública. 
Análisis: siempre ha sido un elemento del buen periodismo. Ahora es crítico. Sobra opinión, falta interpretación. Todos pueden opinar, sólo quienes conocen a fondo un tema son capaces de aportar el análisis que aporta criterios al público para manejar la saturación y evitar el ruido. 
Relatos: el periodismo sin historias no es humano. En la mayoría de los casos ni siquiera es interesante. Contar historias con el mejor estilo y aprovechando los nuevos formatos siempre será un objetivo imprescindible.
Actualización inteligente: ¿hasta cuándo será sostenible la necia carrera de la actualización de la banalidad? Los buscadores y las nuevas tecnologías tienen muchas virtudes, pero entre ellas no está el cuidado de los tiempos informativos. En la era de la saturación corremos para añadir información inocua con la que refrescar las webs y parecer los más potentes informativamente. Pero más actualizaciones no equivalen a más ni a mejor información.

Conexión
Es la mayor revolución de la era digital. Un diario siempre ha sido una comunidad o "una nación hablándose a sí misma", como dijo Arthur Miller, y Walter Lippmann fue todavía más rotundo: "La calidad de las noticias en la sociedad moderna es un índice de su organización social". Uno de los mayores problemas de los grandes medios ha sido perder esa conexión íntima, el contrato originario, con su público y convertirse en una comunidad privada de accionistas demasiado ligados a los poderes políticos y económicos. 
En la época de la modernización reflexiva, la identidad líquida y la globalización es imprescindible una nueva conexión abierta, participativa, social para llegar a desarrollar visiones de la realidad para superar el mito de la objetividad sin caer en el desespero de la irrealidad posmoderna. 
Criterio social: uno de los mayores desafíos del periodismo actual es aprender a gestionar e integrar el criterio del público. Fin de la época de los periodistas engolados que se creen oráculos del hombre común o representantes egregios de la nación o la sociedad.
El público está en el proceso de la información gracias a las herramientas digitales y debemos aprender a manejarlas para evitar la manipulación, la sordera y la tiranía de lo más visto.
El Periodismo 3.0 es un periodismo de fuente abierta, de igual a igual, p2p que crea una red social con el público más allá de los comentarios y que debe estar basada en la propia información. Para otro tipo de contenidos y usos existen lugares más apropiados que los medios informativos sociales. Pero los nuevos medios informativos serán referencia para la identidades de dominio público basadas en la información.

Multimedia
El texto ya no es el elemento fundamental de la información en los medios digitales. Incluso está perdiendo su monopolio sobre la estructura de la web a medida que el hipertexto evoluciona hacia el hipervídeo y los formatos y la visualización gráfica mejoran.
La narrativa digital es multimedia más allá de la primigenia original del texto como código de la web y de la actual tiranía totalitaria del vídeo, que durará porque la convergencia con la televisión acecha.
El uso experto de distintos interfaces y formatos para no sólo ofrecer más y mejor información, sino para dotar de distintos modos de acceso a los contenidos es una de las claves de los medios futuros.

Tecnología
La tecnología ya no es sólo un condicionante del proceso productivo de los medios. Está en su estructura genética, en la naturaleza del proceso informativo y afecta al reporterismo, el estilo, la distribución, la comercialización y el acceso a la información. Sólo nuevas redacciones más orgánicas, flexibles, conectadas, abiertas y totales integradas por nuevos periodistascon mayores habilidades y destrezas tecnológicas unidas a las tradicionales de descubridores y contadores de historias tendrán futuro.
Los medios deben ser también empresas tecnológicas si no quieren que las empresas tecnológicas se hagan dueñas de la información y la comunicación, como está ocurriendo. El problema no es la sustitución, que sería irrelevante, sino el abandono de los criterios tradicionales del periodismo –por mucho que hayan sido maltratados por los propios medios y periodistas- y su sustitución por una cultura de la información estrictamente utilitaria y comercial.
Los medios y los periodistas pueden no ser creadores de tecnología, pero están obligados a ser usuarios expertos y asumir capacidad de ingeniería (uso práctico de la tecnología) si no quieren ser desbordados por el propio público.

 

Rosental Alves fala sobre as novas mídias

Confira uma entrevista feita por uma TV portuguesa com o brasileiro Rosental Calmon Alves, jornalista que participou do lançamento do primeiro jornal brasileiro na internet (Jornal do Brasil, 1995), foi correspondente do JB em Washington e, a partir de 1997, assumiu o posto de professor titular da cadeira de Jornalismo Online na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Texas, em Austin.
No vídeo Rosental fala sobre a necessidade das empresas de comunicação e dos jornalistas se adaptarem às novas mídias.


Novas mídias e velhas empresas




Uma das questões de debates deste blog é o fato de as novas mídias ganharem espaço no jornalismo mas mantendo as mesmas empresas como soberanas nesse processo de ampliação do leque de mídias. Então este texto publicado por Alberto Dines no Observatório da Imprensa em 23/09/2008 não poderia ficar de fora. 

Ele mostra justamente como as Organizações Globo, que dominam a televisão brasileira, estão se adaptando aos novos tempos, criando interatividade entre suas diferentes mídias. Dessa forma, a empresa acaba por levar seu público em uma das velhas mídias a também acompanhá-la nas novas mídias.  

O Globo vai além do papel. E o papel do jornal?

Apoiada numa portentosa campanha publicitária, as Organizações Globo relançaram no domingo (21/9) a Infoglobo, empresa que editará o jornalão carioca, seu site, o noticiário via celular e, posteriormente, a CBN e a GloboNews, ambas com projetos multimeios em andamento.

Batizado pela agência F/Nazca Saatchi&Saatchi com um sugestivo apelo – "Muito além do papel de um jornal" – o projeto pretende fornecer informações para o jornal, o site e as operadoras de telefonia móvel. Além do investimento publicitário e a promessa de iniciar imediatamente a transmissão de notícias pelo celular, o projeto não tem novidade.

Todos os grandes grupos de mídia desenvolvem seus esquemas de interatividade. Sobretudo os que se assumiram como parte da "indústria jornalística" e abriram mão da sua função institucional dentro da sociedade democrática.

A filosofia do projeto está expressa com excepcional clareza no material publicitário:

"Hoje a informação precisa estar onde você quiser. Aprofundada. Analisada. Comentada. Por nós. Por seu vizinho. Por você. Por isso, um jornal tem que estar no papel. Na tela. Na sua mão. Tem que estar na cidade. No país. No planeta. On line. On time. Full time".

Isto posto, às indagações: o papel de um jornal seria o meio físico, material, onde está impresso ou está sendo usado como sinônimo de função/compromisso social? Ir "além do papel" traduz uma opção de marketing ou tem algum sentido institucional?

Descendo ao nível técnico: como aprofundar e analisar notícias através do telefone celular? Se os portais dos três jornalões na internet não conseguem aprofundar as matérias saídas no veículo impresso, como esperar que consigam fazê-lo com flashes de algumas linhas na telinha do telefone de bolso?

Cortar custos

A promessa de fornecimento full time também soa enganosa: os mesmos portais sequer conseguem oferecer um serviço noticioso razoável no intervalo entre o fechamento do jornal-matriz (cerca das 22 horas) até a hora em que chega aos leitores (8 da manhã).

Para cumprir as promessas do projeto "Muito Além do Papel de um Jornal" é indispensável investir em jornalismo e jornalistas. Indispensável adotar voluntariamente posturas capazes de restabelecer a credibilidade da imprensa.

Para transformar em pílulas as análises políticas ou econômicas que o leitor espera do seu informador será necessário contratar redatores qualificados capazes de fazer a "compressão" do texto sem a supressão de idéias ou dados.

Investimento em qualidade jornalística é a última coisa que os grandes grupos pretendem fazer. Há 20 anos perseguem, irmanados, um único objetivo: cortar custos, ainda que diminuindo a qualidade.

Os projetos de interatividade no Brasil visam apenas à rentabilização do investimento na redação: sai mais barato contratar um jovem profissional disposto a fazer três versões da mesma notícia do que admitir um jornalista experiente capaz de oferecer um material jornalístico de qualidade, ainda que em formato único.

Idéia abandonada

Estamos diante da reedição da mesma bolha que no fim dos anos 1990 foi soprada pela mídia, certa de que seria a maior beneficiária das novas tecnologias da informação. Estourou antes de encher. Agora a mídia aposta todas as fichas na "interatividade", a mesma coisa com outro nome.

Os grandes grupos midiáticos americanos estão desnorteados – como aliás o país inteiro – e ainda não fizeram as contas nem avaliariam o rombo produzido pela bolha hipotecária que não conseguiram abortar há cerca de dois anos. Não estiveram à altura do seu papel como defensores do interesse público e não sabem o que dizer.

Seus parceiros brasileiros são mais felizes: enquanto o governo diverte-se com o pré-sal, podem divertir-se com novidades e modismos. "Muito além do papel de um jornal" é apenas uma frase de efeito, sem qualquer sentido. Nada acrescenta a uma imprensa que não compete, não disputa e que há muito abandonou a idéia de apostar em excelência jornalística.

De qualquer forma este observador agradece, penhorado, a engenhosa paráfrase do título do seu livro, O Papel do Jornal (1974, Summus, 8ª edição).