segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Globo nas novas mídias

"Éramos felizes e não sabíamos", diz diretor da Globo sobre novas mídias


DIÓGENES MUNIZ
enviado especial da Folha Online ao Rio

A multiprogramação na TV digital não é uma opção para a Rede Globo, pois não trará mais anunciantes. A afirmação é do diretor de engenharia da emissora carioca, Fernando Bittencourt. Segundo o executivo, que debateu o assunto no Rio, os radiodifusores sentem saudades do tempo em que não havia ameaça das novas mídias ao seu modelo de negócios.

"No cenário de mídia, falando do passado, nós éramos felizes e não sabíamos. Isso há dez, 15 anos. A única forma de ver televisão era pelo ar", disse, lembrando o avanço da internet. Bittencourt participou na sexta-feira (22) do painel "Grandes Redes no Ambiente Digital", do 5º Fórum Internacional de TV Digital, ao lado de Frederico Nogueira, vice-presidente da Band, José Marcelo do Amaral, diretor de tecnologia da Record e Alexandre Sano, executivo de tecnologia do SBT.

Divulgação
"A TV aberta sobrevive de publicidade", lembra diretor global Fernando Bittencourt
"A TV aberta sobrevive de publicidade", lembra diretor global Fernando Bittencourt

O diretor global tentou convencer a platéia de que as emissoras não perdem audiência com as novas opções de informação e entretenimento --como DVDs e vídeos pela internet. Apresentando dados dos EUA, afirmou que a porcentagem de pessoas que vêem TV diminui, "mas a pizza da mídia cresce" --ou seja, fatiá-la em mais pedaços não teria afetado o número telespectadores.

Hoje, o Brasil tem quase 23 milhões de pessoas acessando a rede de casa. Segundo o Ibope, o crescimento no número de internautas tira pessoas da frente da TV no país.

Ao falar sobre a possibilidade de emissoras comerciais transmitirem mais de uma programação no mesmo espectro, o executivo recorreu à mesma metáfora culinária, mas para dizer o contrário. Segundo ele, não há motivo para as TVs oferecerem mais programações já que, neste caso, a "pizza continuará a mesma", com o mesmo número de anunciantes.

Milagre

Para a Globo, apesar de o sistema nipo-brasileiro de TV digital dar chance de transmitir quatro programações diferentes no mesmo espectro (em definição "standard", em vez de alta definição), isso está fora de cogitação.

"A TV aberta sobrevive de publicidade --essa não sabe se é analógica ou digital, quem sabe é a gente. Nós não temos dinheiro novo na TV digital. Então, se você assumir a multiprogramação, significa que o dinheiro que a gente tem é o mesmo para produzir mais de um, dois programas."

Julia Moraes/Folha Imagem
Para Globo, multiprogramação na TV digital não é uma opção comercialmente viável
Para Globo, multiprogramação na TV digital não é uma opção comercialmente viável

De acordo com Bittencourt, "não tem muita razão a multiprogramação". "Com ela, você abre mão da alta definição --isso para mim é fatal. Entre uma e outra fico com a qualidade [de imagem]." Ao optar pela alta definição, as emissoras também evitam que novos "players" entrem em seu mercado.

Como de praxe, os representantes dos radiodifusores aproveitaram o evento para defender escolha do sistema nipo-brasileiro de TV digital com afinco, chegando a arrancar risadas da platéia. "É um milagre, gente", disse aos berros o vice-presidente da Band, Frederico Nogueira, sobre a nova transmissão.

A possibilidade de transmitir pelo menos quatro canais digitais na mesma radiofreqüência ainda está obscura mesmo para quem pretende empregar essa modalidade: as TVs públicas. Quase nove meses após o início das transmissões, há pouca definição governamental sobre o que pode ser feito para iniciar o uso de programações simultâneas por um mesmo radiodifusor.

O jornalista viajou a convite da IETV (Instituto de Estudos de Televisão)


domingo, 24 de agosto de 2008

Jornalismo ou publicidade? - 2

Contrapropaganda

Páginas do primeiro caderno da Folha esta semana foram atacadas por estranha praga verde. Bolas dessa cor invadiram o espaço das notícias, especialmente as internacionais, e prejudicaram sem a menor sombra de dúvida sua inteligibilidade e o conforto do leitor.Tratava-se de campanha publicitária típica da obsessão de alguns "criativos" de ocupar a área do jornal que pertence à informação jornalística, na esperança de atrair a atenção do consumidor. Conseguem, mas o preço que pagam é alto: a aversão do público.Muitos leitores se queixaram ao ombudsman. João Nicolau Carvalho escreveu: "Qual a sua função [das bolinhas]? Hipnotizar o leitor? Não funciona... As bolinhas prejudicam nossa reflexão. Geram distonia entre a forma e o conteúdo".Alison Sales reclamou "porque as bolinhas causaram tamanho incômodo que simplesmente não consegui ler". Talita Vasques pediu: "Não deixem que a "criatividade" das agências de publicidade denigra a imagem do maior jornal do país".A Redação disse ao ombudsman que a ela "cabe apenas vetar extremos que desfigurem a imagem editorial do jornal". Eu acho que este foi um caso extremo e que a campanha deveria ter sido vetada.Tenho recebido inúmeras críticas de leitores inconformados com o excesso de anúncios nos últimos meses. Respondo que, embora a maioria de leitores e jornalistas talvez prefira jornal sem publicidade, é ela que garante as condições para o veículo ser independente e de boa qualidade.Uma coisa é o incômodo de virar páginas inteiras ou separar cadernos sobre produtos que podem não interessar a muitos. Outra é desrespeitar claramente o direito essencial do leitor, que é ler o produto que comprou.Sem contar que, muito provavelmente, a campanha é um tiro no pé do anunciante. Mas esse é um problema dele, que preferiu esse caminho.

Coluna do ombudsman da Folha de São Paulo - 24/08/08

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Jornalismo ou publicidade?

Jornalismo de mentirinha, publicidade de verdade

Por Alberto Dines em 5/8/2008

No último domingo de julho (27) foi a capa promocional adotada pelo Estado de S.Paulo, entregue aos publicitários encarregados de vender os carros Nissan. Na primeira segunda-feira de agosto (4) foi a edição de O Globo, na qual mais uma vez derrubam-se as barreiras que separam o jornalismo da publicidade.
Desta vez, a causa não é mercantil. O anunciante (Eletrobrás), armado de ótimas intenções (a defesa do meio-ambiente e o desenvolvimento sustentável), liquidou as frágeis divisórias que ainda separam o serviço público (jornalismo) do comércio (anúncios). De forma engenhosa e enganosa converte-se uma ação com a aparência inocente, cívica, politicamente correta, num acintoso atentado contra a incolumidade da informação jornalística.
Foram três páginas inteiras (págs. 5, 11 e 19) montadas com matérias já publicadas recentemente no Globo e todas as características de matéria apurada, oriundas da Redação. Inclusive com os selos utilizados habitualmente pelo jornal ("Política Ambiental", "Defesa do Consumidor" e "Impunidade é Verde"). O carimbo "Publicidade" não está no alto, destacado, mas confunde-se com outros dizeres.
E para mostrar que esta mixórdia é mesmo anúncio – apesar de todos os indícios de matéria jornalística, inclusive com o nome de repórteres – acrescentaram-se em cima dos textos imagens desenhadas de copas de árvores.
Na última inserção, os mágicos da Eletrobrás associados aos mágicos do Departamento de Markenting [sic] do Globo revelam que a Eletrobrás está plantando 600 mil mudas de árvores no entorno das suas usinas.
Acabou a palhaçada jornalístico-ambiental? Não: ela continua num panfleto chamado "Razão Social" (usado geralmente para abrigar o que no jargão se chama de picaretagem), carregado de anúncios (Firjan, Petrobrás, CNI-SESI, Instituto Ethos e Coca-Cola), entremeados de matérias de origem dúbia (como a entrevista do presidente da Light).
Exibição de esquizofrenia
Quanto custou esse carnaval aos contribuintes? A folia da montadora Nissan no Estadão foi paga por uma empresa privada que resolveu torrar os seus lucros no Brasil à custa da complacência da imprensa com a degradação da sua imagem. Problema da Nissan.
Mas o delírio exibido pelo Globo foi pago por uma estatal. Aquelas três páginas inteiras mais o exótico apêndice devem ter custado 10 vezes mais do que as 600 mil mudas plantadas no entorno das usinas.
O Tribunal de Contas da União aprovou (ou aprovará) essa aventura marquenteira? A Corregedoria, Ouvidoria ou Ombudsman da Eletrobrás concorda com esse desperdício de recursos?
Com apenas um anúncio – anúncio propriamente dito – de uma única página pode-se oferecer à sociedade uma mensagem clara, direta, legítima e muito mais eficaz. Sem aviltar o interesse público.
Essa parceria Eletrobrás-Globo e os penduricalhos complementares são uma exibição da galopante esquizofrenia que assola a sociedade brasileira: proclama-se a necessidade de preservar o meio ambiente e não se titubeia em degradar o que a República tem de mais precioso – o seu escasso estoque de decência.
Tropa de elite
A jogada do Departamento de Markenting [sic] é genial. Genial e diabólica. Sob o pretexto de defender a humanidade, faz tábula rasa das diferenças que outrora existiam entre comércio e civismo. Pura pirataria, como diria o bigodudo Nietzsche.
Esses casos são graves porque não são casuais, fazem parte de uma estratégia corporativa. A ANJ (Associação Nacional de Jornais) recomenda com insistência aos associados a utilização agressiva de novos recursos publicitários para enfrentar as vantagens das revistas em matéria de impressão colorida e papéis especiais. Isso não significa apenas a adoção por parte dos diários de novos formatos de anúncios – mesmo que a custa da destruição de velhos hábitos de leitura. Significa também a adoção de simbioses tanto na forma como no teor das mensagens veiculadas pela mídia impressa.
Às redações dos grandes jornais brasileiros foram anexados os departamentos de Projetos Especiais (ou de Markenting), uma tropa de elite regiamente paga, com a dupla missão: fazer do jornalismo, publicidade e da publicidade, jornalismo.
Antigamente gritava-se em francês "Vive la diference!". Hoje berra-se em bom português: "Viva o sincretismo!".

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Jornal na era das novas mídias



Existe sobrevida para o jornal?

Por Mario D'Alcântara, publicitário

A pergunta tem sido feita por muita gente séria. E embora haja uma turma de pessimistas integrados apenas à tribo dos nômades digitais, o que estamos vendo no mundo inteiro é a inovação do meio.

Porque os jornais estão sendo bastante criativos no processo de inovação para a sobrevivência. As primeiras novidades são os formatos compactos, com The Times e The Independent (Reino Unido) oferecendo a opção de dois formatos diários. Está crescendo o número de jornais para o público infanto-juvenil. Há ainda os jornais inteiramente redigidos pelos seus próprios leitores: o OhMyNews da Coréia do Sul é escrito por 33 mil cidadãos-repórters e lido por 2 milhões de leitores.

Nos Estados Unidos, o Winsconsin State Journal pede aos seus leitores para acessarem a Internet todo dia entre 11 e 16 horas para determinarem a pauta do dia seguinte. Com isso, algumas matérias de esportes estão começando a aparecer na primeira página! Há ainda os jornais exclusivamente voltados para a comunidade negra, latina, e outras etnias.Esta é aquela que Jonathan Schwartz, da Sun Microsystems, chamou da "nova era da participação" quando as fronteiras limítrofes entre o criador e o consumidor estão sendo erodidas e desaparecendo a um passo surpreendente.

O que estamos vivenciando é uma gradativa perda quantitativa, em termos de número de jornais e volumes de tiragem para o crescimento do meio em termos de conteúdo e qualidade.

Fonte: Jornal Hoje Em Dia, edição do dia 24/04/2008