domingo, 19 de outubro de 2008

Jornalismo ou publicidade? - 3


No último dia 12 de outubro a maioria dos grandes jornais brasileiros veicularam um anúncio em comemoração aos 200 anos do Banco do Brasil. 
No caso da Folha de São Paulo, uma falsa primeira página contendo a logomarca do jornal e notícias sobre o banco confundiram o leitor. Havia sim a escrita "informe publicitário", entretanto, a tipografia utilizada era semelhande à da Folha, o layout da página idem. 
Surge então a pergunta: até onde a publicidade interfere nas notícias?
Será que é certo a publicidade enganar o leitor, fazendo-o lê-la como se fosse notícia? Não existe um limite para separar o espaço do jornalismo e da publicidade? Fato como este podem comprometer a credibilidade do veículo de comunicação?

Segue abaixo o comentário do ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, sobre este episódio.



Na capa, todo cuidado é pouco

Ao permitir que o espaço mais nobre do produto fosse totalmente ocupado por anúncio, o jornal abriu brecha para ver seu prestígio corroer-se

"CAPA é a primeira impressão tanto para o assinante como para o leitor de banca, e ver nesse domingo TODA capa com publicidade, me perguntei: cadê o jornalismo?".
Assim começa a correspondência que Frederico de Oliveira e Souza me dirigiu sobre a primeira página da Folha do dia 12 de outubro. Ele e muitos outros se sentiram desrespeitados por receberem uma capa promocional abaixo do logotipo do seu jornal.
Ao permitir que o espaço mais nobre do produto fosse totalmente ocupado por um anúncio que, além do mais, tentava se parecer com notícia, o jornal abriu brecha para ver seu prestígio corroer-se diante do público.
Quase ninguém duvida da necessidade de o veículo de comunicação ser lucrativo para garantir independência editorial, investir em qualidade.
Joelma Sampaio Evangelista, "assinante decepcionada", escreveu: "Compreendo que o jornal precisa de apoio comercial para sobreviver, mas daí a obrigar o leitor a ler, logo de cara, uma página sobre um produto, é uma total falta de respeito. Gostaria de acreditar que os diversos departamentos da Folha são inteligentes o bastante para evitar esse tipo de coisa".
E esta não foi a única derrapada do jornal nesse infeliz domingo. Na capa "de verdade", havia uma "chamada" que não estava identificada como publicitária e remetia o leitor para o caderno Dinheiro.
O caderno de economia é material jornalístico, não publicitário. O anúncio da primeira página dirigia o leitor para outro anúncio, mas parecia endereçá-lo para notícias.
A publicidade é uma atividade fascinante, que valoriza e estimula a inteligência e a criatividade e desempenha importante função para promover a atividade econômica e difundir idéias úteis para a sociedade.
Mas às vezes criadores se excedem e tentam furar a muralha chinesa que precisa demarcar com absoluta exatidão propaganda e jornalismo.
Os veículos que abdicam dessa distinção ameaçam seriamente sua credibilidade, a virtude principal para lhes garantir a subsistência.
A Redação, questionada, afirma que "a separação Redação e Comercial nunca foi e nem será afrouxada".
Indaguei da Redação se o artifício da capa promocional já havia sido utilizado antes, já que eu não me recordava de precedente.
Fui informado de que, sim, uma vez, em 2003. Também me foi dito que "jornal usa com muita parcimônia esse recurso e a Redação é sempre comunicada, mas essa decisão é comercial".
A meu ver, trata-se de procedimento errado. A última palavra sobre a invasão do terreno tradicionalmente informativo deveria ser da Redação.
Ainda que estivesse registrada a marca "informe publicitário" acima da "manchete" publicitária (em família tipológica que, em minha opinião, não era claramente diversa da usada nas notícias), a capa promocional de domingo passado usurpou o jornalismo e ofendeu o leitor.
Já basta a praga da sobrecapa, que atrapalha a leitura, mas ao menos não se confunde com o noticiário.
A logomarca do jornal é sagrada, não pode ser tomada emprestada para promover nenhuma propaganda. O preço a pagar depois pode ser muito maior do que o recebido do anunciante agora.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Pesquisa italiana


Pesquisa mostra que quase 70% dos italianos acham que os jornalistas mentem

Redação Portal IMPRENSA

Uma pesquisa telefônica realizada com duas mil pessoas pela empresa italiana AstraRicerche mostrou que 68% dos italianos consideram os jornalistas mentirosos, enquanto 60% acham que os profissionais são pouco informados e 52% acreditam que eles não são independentes.

No entanto, segundo o estudo, a maioria dos entrevistados consideram a informação jornalística indispensável; 38% deles definem a utilidade do jornalismo como "altíssima", 16% a acham "alta" e 19% "média". Somente 15% dos entrevistados consideram "pouca" a utilidade da informação, e para 12% deles não há importância.

Carlo Malinconico, presidente da Federação Italiana de Editores e Jornalistas, afirmou estar "francamente surpreso com os dados da pesquisa" - apresentado durante uma conferência em Milão da Ordem dos Jornalistas da Lombardia, região do norte da Itália. "Além generalizar, é uma pergunta fortíssima, e tem um alto percentual de italianos para os quais a leitura do jornal é fundamental", declarou.

"De fato, o julgamento social sobre os jornalistas está em contínua queda", afirmou o autor da pesquisa, Enrico Finzi, destacando ainda que "existe uma enorme demanda por boa informação", informou a agência de notícias Ansalatina.

Letizia Gonzales, presidente da Ordem dos Jornalistas da Lombardia, disse que pela primeira vez na Itália os profissionais de mídia "se deparam com uma analise científica e, de modo explícito, com os problemas do jornalismo, a partir da ótica do leitor".