terça-feira, 4 de novembro de 2008

Um coração marqueteiro no peito do jornalista



A estreita ligação entre jornalismo e marketing, que, para surpresa de alguns, parece sempre ter existido





Fabiano Ávila - 21 de Junho de 2005, 13:56



A necessidade de vender aproximou dois profissionais que, além de aparentemente não terem nada em comum, são considerados por muitos como antagônicos. Jornalistas se proclamam representantes da verdade, numa eterna cruzada a serviço do bem-estar público. Marqueteiros, por sua vez, são vistos como sujeitos dispostos a usar qualquer recurso para lucrar. Apesar de causar arrepios nos puristas defensores de um jornalismo sem compromisso com a receita das empresas, a integração das duas categorias é definitiva, e, talvez, sempre tenha existido. Segundo o diretor superintendente da Abril e estudioso da relação entre marketing e jornalismo, Laurentino Gomes, quando o jornalista busca tornar o material jornalístico interessante e agradável, está fazendo marketing. Para aumentar a polêmica, defendeu em sua palestra no Curso Abril que a reportagem nada mais é do que uma poderosa ferramenta de marketing, que permite sistematizar a busca de informações, ordená-las de forma compreensível na linguagem do leitor e satisfazê-lo em suas necessidades.


Diversas lições do marketing sempre foram, consciente ou inconscientemente, aplicadas ao jornalismo. Em relação à fidelidade do público, por exemplo, o marketing ensina que clientes muito satisfeitos tornam-se "apóstolos". São aqueles apaixonados, capazes de defender um produto em qualquer circunstância. As redações sempre buscaram formar esses seguidores criando espaços para suas manifestações e atendendo quando possível a suas reivindicações.


Adotar os métodos e práticas do marketing não significa enganar o público. Afinal, marketing não vende produtos ruins - pelo menos, não por muito tempo. Se as matérias não forem apuradas com seriedade e bem escritas, não adianta um título turbinado ou uma capa vendedora e achar que isso garante o lucro. O leitor não é bobo.

Ainda a questão do Jornalista/Garoto-propaganda

A.D.

O N de Notícia agora apresentado por William Bonner (Globonews) deu seqüência ao tópico levantado na capa de nossa última edição sobre a participação do jornalista Paulo Henrique Amorim no informe publicitário que apresentou a megafusão cervejeira.

Bonner teve a gentileza de convidar este Observador para participar do programa que foi ao ar na semana 11-16 de julho. Antes de encerrar, fez uma pergunta aos três participantes mais ou menos nestes termos:

"Quem deve zelar pela ética jornalística – o profissional, a empresa ou o público ?"

Este Observador foi claro – a conduta profissional é uma questão que diz respeito primeiramente ao profissional, questão de foro íntimo.

E por que não à empresa jornalística?

Simplesmente porque está voltada para o mercado. Ela compõe a mídia, ou, para sermos exatos, o sistema mediático – um universo de interesses hoje distanciado das premissas e pressupostos que haviam transformado o jornalismo em Quarto Poder.

O jornalista pode ser agente e instrumento desse sistema mas, não obstante, ele também é o responsável e zelador dos seus valores e crenças. As empresas não admitem que seus empregados apresentem mensagens porque estão apenas interessadas em preservar uma imagem que lhes pertence. É domínio seu, das empresas. Seus cuidados são comerciais – legítimos certamente – mas os cuidados do jornalista são morais.

As empresas admitiriam que jornalistas fizessem comerciais ou anúncios sobre ela própria? Jornalistas e âncoras da CNN acedem em fazer propaganda institucional do seu canal, o que não acontece com os grandes âncoras das redes abertas da TV americana.

A maioria das nossas empresas jornalísticas permite que seus jornalistas recebam um cachê para fazer conferências ou apresentar eventos. Mas muitos jornalistas – mesmo prestadores de serviços, não contratados – acham que não é correto. Receber pagamento por uma palestra cria vínculos e dependências (claro que isso não inclui aulas em universidades ou programas de treinamento).

O debate merece desdobramentos.

Jornalismo e Marketing de mãos dadas


Um cenário sem volta, que exige discussões novas


Manuel Carlos Chaparro*

Nunca como agora o marketing e a notícia andaram tão próximos e interativos. Na política como nos negócios. Nas religiões como na ciência. Na cultura como nos esportes de alta competição. Em qualquer desses campos, e em outros, os acontecimentos noticiáveis são cada vez mais cuidadosamente planejados e controlados pelos saberes e poderes estratégicos do marketing, que transformam em ações táticas os fatos a serem noticiados.


Os próprios produtos jornalísticos – jornais, revistas, programas de TV e rádio – investem cada vez mais em estratégias de marketing, em busca de audiências que lhes garantam lucros. Ou seja: sobrevivência. E isso nada tem de ruim, desde que não ocorra a fraude do jornalismo, em suas razões de ser e nos seus modos de produção.


Existe até, e cresce vertiginosamente no mercado, um segmento de produtos editoriais - o das publicações customizadas (“Custom Publishing”) – em que marketing e jornalismo se completam como conceito e como discurso, em torno de uma nova variável teórica, na qual as categorias “leitor” e “consumidor” se fundem.


Trata-se de publicações que cumprem o papel de agregar, às marcas a que estão vinculadas, o valor simbólico da qualidade de bons textos jornalísticos. Em alguns casos, entre os melhores modelos existentes no mercado, são revistas de altas tiragens, distribuídas gratuitamente e/ou vendidas em bancas e livrarias de primeira linha, com qualidade editorial garantida em textos assinados por autores consagrados (jornalistas e escritores). Em outros casos, a opção estratégica é por tiragens baixas, para acentuar o caráter seletivo da distribuição. O que faz dessas revistas produtos disputados.


Em ambos os casos, são publicações focadas em públicos identificados com as respectivas marcas. Públicos presenteados pelo requinte da qualidade editorial e gráfica. O sucesso é tal que algumas dessas revistas chegam a se transformar em lucrativas unidades de negócio, graças às receitas publicitárias que atraem. Com o detalhe de que têm e usam, como principal argumento de venda, a qualidade jornalística dos textos.


Na trilha da aproximação estratégica e tática entre marketing e jornalismo corre também a tendência mundial de crescimento dos jornais de distribuição gratuita. E a essa tendência se juntam, aqui e ali, experiências novas de combinar venda em banca e formas de distribuição gratuita, de jornais que têm preço de capa e prestígio social de “grande imprensa”. É o caso do jornal português Público, tido como o principal diário de referência em Portugal.


Pensado e escrito para leitores das classes A e B, o Público amarga a limitação histórica das baixas tiragens. Pois agora, além de vendido em bancas e livrarias pelo preço de capa, é distribuído gratuitamente na maior rede portuguesa de supermercados, como brinde oferecido aos clientes que passam pelos caixas.


Em quê isso prejudica o jornalismo do Público? Acredito que em nada. Bem pelo contrário, o crescimento de tiragem aumenta o potencial econômico do jornal, sem lhe sacrificar a independência. E porque se trata de um bom jornal, também há benefício social da socialização dos conteúdos. Pessoalmente, em visita recente a Lisboa, pude comparar, ainda que sem aprofundamento, a qualidade atual do jornal com a de um ano atrás. O Público de agora me pareceu melhor.


***


Temos aí, pois, um tema propício a novas reflexões e discussões, indispensáveis e urgentes, se considerarmos que esse é um cenário sem volta: até que ponto são desejáveis, para a sociedade e suas razões éticas, as imbricações entre jornalismo e marketing?
***
MANUEL CARLOS CHAPARRO* é doutor em Ciências da Comunicação e professor de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo. É também jornalista, desde 1957

Marketing, jornalismo e isenção

São Paulo, domingo, 11 de junho de 1995


MARCELO LEITE


O concubinato de conveniência entre marketing e jornalismo ainda não produziu prole capaz de fundar uma dinastia, mas já espalhou alguns bastardos pela imprensa brasileira. Um deles é o que se poderia chamar de matéria paga gratuita, na falta de apelido menos contraditório.


Submetidos à alta dos preços do papel e à concorrência de outros meios, jornais e revistas recorrem cada vez mais a promoções para manter ou elevar as tiragens. Fascículos, CDs, sorteios _há apêndices para todos os gostos nas bancas. As pessoas compram, sinal de que a estratégia está correta (ou seja, funciona, conforme a lógica estreita dos tempos atuais).


O abastardamento do jornalismo não decorre dos próprios brindes, alguns dos quais até podem ajudar a educar este país inculto. O problema está no uso do já racionado espaço editorial _aquele destinado a notícias e reportagens, não a anúncios_ para a promoção dessas iniciativas estranhas às redações. Neste terreno, a maioria dos jornais e revistas têm telhados de vidro. Das reportagens da Folha sobre seus atlas às do jornal "O Estado de S.Paulo sobre os encartes da revista "National Geographic que está para lançar, não faltam exemplos de anúncios fantasiados de notícias. Não são poucos os leitores que percebem esse desvio e se queixam, indignados, ao ombudsman.


Este não é, com certeza, o maior problema dos jornais. O leitor aprende rapidamente a reconhecer essas "matérias pagas (uma prática nefanda do jornalismo em extinção nos mercados de opinião mais desenvolvidos, como o paulista) e pode renunciar a lê-las, assim como pula anúncios que não lhe interessam.


Resta, contudo, uma questão de princípio: onde vai parar a já problemática objetividade jornalística, quando o texto por escrever tem a obrigação preestabelecida de elogiar. Não há, nesses casos, o problema adicional da venalidade (os jornais e revistas não precisam pagar para vender o próprio gato por lebre), mas tais pseudo-reportagens representam no mínimo duas formas de desrespeito ao leitor: subtração de espaço normalmente ocupado por notícias no sentido pleno da palavra; frustração da expectativa crítica suscitada por todo e qualquer texto jornalístico.


Por essas razões, defendi internamente na Folha que essas comunicações passem a ser feitas na forma de anúncios. É uma proposta conscientemente ingênua, pois tem pouca ou nenhuma chance de ser seguida. Mas são os princípios, não as conveniências e cálculos, que devem nortear o trabalho do ombudsman.


Autocrítica


Mais delicada é a situação em que um texto deve dar satisfações ao leitor por falhas do jornal. A Folha sempre adotou a tática corajosa de recusar o axioma de Ricupero (o que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde).


Foi assim com o quase colapso da distribuição vivido pelo jornal em 9 de outubro do ano passado. Tem sido assim com os sucessivos atrasos na encadernação de fascículos. Nos dois casos, a Folha tomou o partido da transparência e publicou reportagens para dar explicações e informar as providências tomadas.


Uma dessas reportagens saiu domingo passado, sob o título "Encadernações atingem 87,6% dos fascículos (pág. 1-18). As informações apresentadas não exigem alteração das opiniões que já manifestei sobre o tema em outras colunas.


Como arremedo de despedida desse tema, ao qual só pretendo voltar se for imperioso, registro alguns comentários sobre o texto que ouvi da leitora Violeta Saldanha Kubrusly: "Tive de esperar três meses para receber meu atlas. Esse título, `Encadernações atingem 87,6% dos fascículos', é lamentável. Parece que as estatísticas servem para enganar as pessoas. Minha leitura é que, depois de seis meses, nem 90% das encadernações estão prontas. Todo mundo faz autocrítica, por que a Folha não pode fazer?


Enviados especiais


Um assunto correlato, que envolve a contaminação de reportagens por interesses extrajornalísticos, virou assunto obrigatório entre profissionais do ramo nas últimas semanas: viagens a convite de terceiros.


Aqui também quase todas as publicações _e grande parte dos profissionais_ tem poucas razões para atirar a primeira pedra. Apesar disso, a revista "Veja de 24 de maio abordou com seu habitual tom moralista uma viagem à Itália de "luxo nababesco (na descrição de um participante), organizada pela Alfa Romeo/Fiat para três dezenas de jornalistas brasileiros.


Foi um fuzuê. De respostas iradas a súbitos cancelamentos de participações já confirmadas em outras excursões, a categoria andou em polvorosa.Tão certo como o fato de o sol levantar-se amanhã é que esses convites voltarão a ser aceitos em breve. De forma generalizada, e não só nas editorias de turismo, onde são moeda corrente.


Veja o que diz sobre isso o "Novo Manual da Redação, em sua pág. 15: "Jornalistas da Folha podem viajar a convite de instituições, governos ou personalidades. Se a viagem resultar em texto publicado, o jornal informa com clareza que o jornalista teve suas despesas pagas pelo patrocinador. Para o jornal, esta cláusula de transparência parece resolver tudo. O leitor, de posse da informação sobre o custeio da viagem, avaliaria ele mesmo se o jornalista agraciado manteve-se isento e crítico na produção de seu texto.O problema não é tanto o que se escreve, mas o que se deixa de escrever. É um beco-sem-saída ético. Se tiver razões para criticar o patrocinador e se decidir a fazê-lo, o jornalista estará sendo no mínimo indelicado; se não o fizer, é o leitor quem será traído.


A única solução para o dilema é tão conhecida quanto penosa: todas as despesas de jornalistas em missão deveriam ser pagas por seu empregador.Esse ônus, nem mesmo a vestal "Veja se mostra inclinada a enfrentar. Na mesma reportagem, endossou o álibi preferido nas redações: "É possível que a viagem também seja útil ao jornalista, que pode arrumar algumas informações valiosas.


Em outras palavras, permanece aberta a porteira: cabe a cada jornalista e a cada publicação definir quão valiosas são as informações, a viagem e a própria dignidade.


Fico curioso para saber o que o leitor pensa disso.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Novas mídias e velhas empresas 3

Um dos pilares deste blog é a discussão sobre as novas mídias e como as velhas empresas de comunicação lidam com o seu surgimento.
Para coroar este debate, segue abaixo o programa Globo News Especial, do dia 23/09/2008. Apresentado pelo jornalista Tonico Ferreira, o programa apresenta um debate com o tema A revolução das novas mídias. Participam da conversa Eleonora de Lucena, editora executiva do jornal Folha de São Paulo, Ricardo Gandour, diretor de conteúdo do grupo Estado, Rodolfo Fernandes, diretor do O Globo.
Vale a pena reservar alguns minutos para acompanhar o que representantes dos três maiores jornais do país pensam sobre o futuro do jornalismo, o papel do jornal diante das novas mídias, como lidar com os recursos da internet, etc. 






O mais interessante de tudo isso é notar que, mesmo com o advento das novas mídias, são as velhas empresas que dominam a divulgação das informações. O que está em jogo é a credibilidade conquistada por estes veículos e a confiança que inspiram em seus leitores, que querem se informar o mais rápidamente possível, mas mantêm-se fiéis às empresas que já se acostumaram a consumir.

Será o fim do jornal?


Muitas pessoas acreditam que, assim como o rádio não acabou com o jornal e a televisão não acabou com o rádio, a internet também não será capaz de acabar com as mídias antigas. Entretanto, este texto é um tanto pessimista quanto ao futuro dos jornais. Talvez pessimista excessivamente, mas a tese principal está certíssima: para sobreviver às novas mídias é preciso de modernizar e passar a utilizá-la a seu favor.














Só sobreviverão no papel os que investirem em conteúdo original

Cada vez mais as pessoas estão buscando informações na internet e uma das consequências disso é o declínio da popularidade (e do lucro) dos jornais impressos. Os próprios jornais podem se beneficiar desse fenômeno com suas edições online, mas eles aparentam não ter idéia de como fazer dinheiro na internet - ou pelo menos obter a mesma lucratividade do meio impresso. Sempre me pergunto se jornais e revistas evoluirão para uma forma mais moderna. Ou se apenas desaparecerão. Historicamente, novas mídias não eliminaram as velhas. A TV fez o cinema e o rádio mudarem para sobreviver. O rádio abandonou as novelas e se concentrou em música, notícias e opinião. O cinema se modernizou. Mas alguns meios de comunicação morreram. Quando Gutemberg inventou a imprensa, os escribas que copiavam Bíblias à mão foram procurar emprego. Hoje, muitos repórteres de jornal procuram trabalho. Podem não encontrar, como aconteceu com os escribas.

O impacto da web está mais para o da TV sobre o rádio que para o efeito profundo causado pela imprensa. Provavelmente, a maioria das pessoas pensa o contrário. A web é um mecanismo de distribuição de conteúdo mais barato, e não muito mais que isso. Com relação a jornais e revistas, a web é como uma impressora que ganhou um upgrade. Um mecanismo sem tinta. Então, por que os repórteres estão nessa situação? A mudança atual não seria similar à causada pela imprensa de Gutemberg? A analogia é falsa. Os jornalistas não encontram trabalho porque há uma abundância deles num mundo globalizado.

Tudo o que você precisas fazer é usar sites como o Google News. Você procura um tópico e o Google diz onde estão outras 500 histórias sobre o assunto. Você explora o material e vê que a maioria delas diz a mesma coisa. Para que precisamos de 500 escoadouros de distribuição de um único artigo? Uma parcela muito pequena desse conteúdo é original. Se os Estados Unidos são o pior caso do impacto da web, é onde se pode analisar melhor o futuro do negócio de jornais e revistas. Os escoadouros com conteúdo original prosperam. Aqueles que compram conteúdo barato de agências estão sofrendo. O problema é que qualquer um pode fazer isso. Os jornais pioraram a situação demitindo repórteres que produziam conteúdo valioso. Baratearam seus produtos e afastaram mais consumidores. Nunca entendi que tipo de idéia fixa é necessária para piorar seu produto quando se está perdendo clientes. Alguns jornais se meteram em uma espiral descendente, seguindo a filosofia de baratear o produto, até que simplesmente fecharam. Alguém pode dizer: "Eles fizeram tudo que podiam para salvar seu negócio". É risível. Apenas cortar custos não é "fazer tudo que podiam".

A pior parte da enrascada é que os representantes da velha mídia não escutam os da nova. Sou velho o bastante para conhecer bem ambos. A maioria dos executivos da velha mídia são tacanhos sobre as mudanças. É por isso que a internet está matando os jornais e vai continuar até que eles se modernizem e, acima de tudo, gastem mais dinheiro em conteúdo único e original. Temo que poucos farão essa transição.

John C. Dvorak
Texto publicado na página 32 da revista Info, edição de setembro de 2008, n° 271

Novas mídias e velhas empresas 2

O texto abaixo, de autoria de Carlos Castilho, foi retirado do site "observatório de imprensa". Castilho fala de uma pesquisa que consideramos importante para a discussão acerca do advento das novas mídias (entre as quais a internet pode ser considerada a mais relevante) e as modificações que elas geram na relação dos leitores com os veículos de comunicação tradicionais.

É interessante notar que, mais uma vez, fala-se na mudança de hábito da população, que passa a se informar mais pela internet. Entretanto, elas o fazem nos sites dos grandes jornais que se acostumaram a ler. Logo, estamos vendo que mudam-se as mídias, mas permanecem as velhas empresas.



Mudança de hábitos de leitores 
gera novo desafio para as redações

Uma pesquisa que acaba de ser divulgada pelo instituto Pew Research Center for the People and the Press mostra que os consumidores de informações já não consomem passivamente as notícias publicadas pela imprensa e adotam cada vez mais uma postura investigativa e seletiva.

Esta constatação é a principal conclusão da pesquisa bianual sobre hábitos de consumo de noticias entre os norte-americanos e aponta para a necessidade de mudanças significativasnas estratégias editoriais, por meio da substituição da noticia pronta e acabada por um cardápio de opções informativas.

Tom Rosenstiel, diretor do Project for Excellence in Journalismanalisou os resultados da pesquisa e apontou uma marcada preferência dos novos consumidores de informação em buscar a diversidade de fontes, seja por meio da pesquisa e da busca, como pelo uso dos chamados agregadores de noticias.

Isso significa que os leitores já não se contentam mais com a notícia publicada num jornal, seja na versão impressa ou na versão online. Ele vai procurar noutras fontes, como por exemplo os weblogs. O leitor tornou-se mais exigente e passou a preferir o que Rosenstiel chamou de “cultura da exigência” (on demand culture).

 Esta nova atitude dos consumidores de informação é mais intensa na geração com menos de 30 anos, mas manteve a preferência do público pelas fontes tradicionais de notícias, como grandes jornais, revistas e emissoras de radio ou TV. As pessoas lêem cada vez menos publicações impressas, mas procuram cada vez mais a versão online do seu jornal, revista ou emissora de televisão de preferência.

 Os resultados da pesquisa mostram também um novo desafio para as redaçõesconvencionais. Publicar notícias já não é mais tão importante como se pensava. Muito mais relevante começa a ser a oferta de opções informativas, ou seja, a recomendação de fontes e sua respectiva avaliação.

 É o que especialistas como o australiano Alex Bruns chamam de gatewatching, ou sejaobservação de fontes. Trata-se de um jogo de palavras com a expressão gatekeeper, usada para caracterizar a seleção de notícias, em que o jornalista decide o que o leitor vai ou não ler. A internet reduziu drasticamente a importância do “porteiro da notícia”, ao ampliar a margem de opções à disposição do leitor. 


Visão otimista de uma empresa de comunicação sobre o marketing no jornalismo

Laurentino Gomes explica como o marketing pode ser útil ao jornalismo

Raquel Brust

31 de Maio de 2006, 18:54 

Veja as fotos

O Diretor Superintendente da Unidade 3 (formada pelas revistas de Casa e Construção, Celebridades, Motor/Esporte e Turismo), Laurentino Gomes, ministrou a palestra Ética - os limites entre marketing e jornalismo no terceiro dia da Semana Plug de Jornalismo.

Marketing x Jornalismo

Laurentino Gomes trabalha na Abril há 20 anos, 15 dos quais foi repórter da revista Veja. Ao examinar a trajetória da revista Contigo!, ele começou a se interessar por marketing. Isso porque ela começou como uma revista de foto novela, passou a tratar de celebridades, em seguida se tornou popularesca e cobria a ficção, as novelas, e, em 2004, foi reposicionada, voltou a tratar de celebridades e se tornou mais elitizada, destinada agora às classes A e B. Esse é um exemplo de que o produto deve acompanhar o mercado e os consumidores e se adaptar de acordo com eles.

Essa transformação sofrida por Contigo! ao longo dos anos ilustra o papel do marketing no jornalismo. Quando criamos um produto, temos que levar em conta os 4 "Ps" do marketing: produto/serviço, é preciso defini-lo, saber quais as qualidades, o público alvo, etc; ponto de venda, ou seja, a estratégia de chegar até o consumidor (bancas, assinaturas, etc); promoção, que pode ser a publicidade com anúncios, eventos, etc; e preço, que define o público alvo e a viabilidade do produto.

Nova Era, Novos Produtos

O início do século XX foi marcado pela linha de montagem, modelo de produção do empresário Henry Ford. Essa lógica contaminou o mercado de forma que os produtos fossem padronizados com o objetivo de atingir o maior número de pessoas possível - vide o McDonald's, a Coca-Cola, etc. Os meios de comunicação também embarcaram nessa onda. Os jornais, canais de televisão e de rádio abertos tinha uma programação variada para atingir uma grande audiência sem se preocupar com as características do público.

No último século, o mercado mudou e os produtos padrão não fazem mais o mesmo sucesso. Estamos na era da segmentação, do conteúdo on demand, da especialização. A internet, maior paradigma dessa nova era, já é acessada por 1 bilhão de pessoas, o que significa que uma em seis pessoas acessa a internet no mundo. Nesse novo contexto, os consumidores não aceitam mais qualquer produto. Então, para ser bem sucedido com um produto, é necessário que você saiba qual o segmento da sociedade que quer atingir. A oferta de títulos disponíveis nas bancas cresceu de 1.900 para 3.900 nos últimos cinco anos, fruto dessa segmentação.

Fazendo a diferença

Nessa gigante diversidade de revistas no mercado, alguns fatores fazem a diferença. São eles: a qualidade do conteúdo editorial, a capacidade de entender o mercado e mudar junto com ele, as marcas e a capa. Se a revista for forte nesses quatro pontos, vai ser eleita na banca. Para conseguir se destacar nesses quesitos, é preciso conhecer o leitor - sair daquela atitude arrogante que em geral os jornalistas têm e conversar com leitores, freqüentar bancas, etc. - e trabalhar com entusiasmo, intuição e criatividade.

Lições de marketing para fazer uma boa revista

  1. Revista é segmentação. Seu conteúdo editorial pode ser segmentado por interesse, faixa etária, geografia, preço, etc.
  2. Revista não é Coca-Cola. É um produto específico para um leitor específico. Não pretende atender um publico tão diversificado como a televisão aberta, por exemplo.
  3. Revistas devem seguir aos seus leitores e mudar junto com eles. Quem não muda, morre.
  4. É preciso conhecer o leitor. A revista é absolutamente pessoal (não é como o rádio que você pode ouvir com alguém, você lê sozinho). Todo horário é nobre. Ela é lida com uma atenção qualificada, a audiência é focada. Pesquisas mostram que a revista transmite mais credibilidade aos leitores do que jornais.
  5. Revistas são formadoras de opinião. Diante da saturação de informações disponíveis, cabe às revistas filtrar aquilo que interessa a determinado segmento.
  6. A essência do trabalho é a reportagem.

Credibilidade é o principal ativo. É muito difícil de conquistá-la e fácil de perdê-la.

Cuidado jornalistas esportivos

Fonte:http://flagrantesdocotidiano.blogspot.com

Depois da mão de ferro do Estado, a mão pesada dos grupos econômicos.

Charge publicada em http://www.masquemario.net/blog/index.php?paged=2

O jornalista multimédia do século XXI

Seremos uma espécie de MacGiver do jornalismo no futuro? Mil e um recursos na mochila, trabalhando sozinhos? E que tipo de jornalismo poderá advir disso? Quem será a audiência desse tipo de jornalismo? Os conglomerados de comunicação irão acabar? Nesse novo meio, o que fará a diferença? O jornalista polivalente ou o jornalismo de excelência? Que papel deve ter o ensino de jornalismo numa era de acelerada mutação tecnológica, emergência de novas pressões sobre os profissionais de informação, e uma desconfortável indefinição de gêneros e conteúdos da função de jornalista?
Estas são algumas das perguntas que Anabela Gradim, da Universidade da Beira Interior em Portugal, se propõe a responder. São 23 páginas em que a autora compartilha com o leitor sobre as dúvidas e certezas que permeiam a discussão do futuro do jornalismo, qual o papel desse jornalista e para quem será esse produto. Trata-se de texto para iniciar um debate sobre algo que ainda não está bem dimensionado, o jornalismo on-line.
Clique aqui para ler.

domingo, 19 de outubro de 2008

Jornalismo ou publicidade? - 3


No último dia 12 de outubro a maioria dos grandes jornais brasileiros veicularam um anúncio em comemoração aos 200 anos do Banco do Brasil. 
No caso da Folha de São Paulo, uma falsa primeira página contendo a logomarca do jornal e notícias sobre o banco confundiram o leitor. Havia sim a escrita "informe publicitário", entretanto, a tipografia utilizada era semelhande à da Folha, o layout da página idem. 
Surge então a pergunta: até onde a publicidade interfere nas notícias?
Será que é certo a publicidade enganar o leitor, fazendo-o lê-la como se fosse notícia? Não existe um limite para separar o espaço do jornalismo e da publicidade? Fato como este podem comprometer a credibilidade do veículo de comunicação?

Segue abaixo o comentário do ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, sobre este episódio.



Na capa, todo cuidado é pouco

Ao permitir que o espaço mais nobre do produto fosse totalmente ocupado por anúncio, o jornal abriu brecha para ver seu prestígio corroer-se

"CAPA é a primeira impressão tanto para o assinante como para o leitor de banca, e ver nesse domingo TODA capa com publicidade, me perguntei: cadê o jornalismo?".
Assim começa a correspondência que Frederico de Oliveira e Souza me dirigiu sobre a primeira página da Folha do dia 12 de outubro. Ele e muitos outros se sentiram desrespeitados por receberem uma capa promocional abaixo do logotipo do seu jornal.
Ao permitir que o espaço mais nobre do produto fosse totalmente ocupado por um anúncio que, além do mais, tentava se parecer com notícia, o jornal abriu brecha para ver seu prestígio corroer-se diante do público.
Quase ninguém duvida da necessidade de o veículo de comunicação ser lucrativo para garantir independência editorial, investir em qualidade.
Joelma Sampaio Evangelista, "assinante decepcionada", escreveu: "Compreendo que o jornal precisa de apoio comercial para sobreviver, mas daí a obrigar o leitor a ler, logo de cara, uma página sobre um produto, é uma total falta de respeito. Gostaria de acreditar que os diversos departamentos da Folha são inteligentes o bastante para evitar esse tipo de coisa".
E esta não foi a única derrapada do jornal nesse infeliz domingo. Na capa "de verdade", havia uma "chamada" que não estava identificada como publicitária e remetia o leitor para o caderno Dinheiro.
O caderno de economia é material jornalístico, não publicitário. O anúncio da primeira página dirigia o leitor para outro anúncio, mas parecia endereçá-lo para notícias.
A publicidade é uma atividade fascinante, que valoriza e estimula a inteligência e a criatividade e desempenha importante função para promover a atividade econômica e difundir idéias úteis para a sociedade.
Mas às vezes criadores se excedem e tentam furar a muralha chinesa que precisa demarcar com absoluta exatidão propaganda e jornalismo.
Os veículos que abdicam dessa distinção ameaçam seriamente sua credibilidade, a virtude principal para lhes garantir a subsistência.
A Redação, questionada, afirma que "a separação Redação e Comercial nunca foi e nem será afrouxada".
Indaguei da Redação se o artifício da capa promocional já havia sido utilizado antes, já que eu não me recordava de precedente.
Fui informado de que, sim, uma vez, em 2003. Também me foi dito que "jornal usa com muita parcimônia esse recurso e a Redação é sempre comunicada, mas essa decisão é comercial".
A meu ver, trata-se de procedimento errado. A última palavra sobre a invasão do terreno tradicionalmente informativo deveria ser da Redação.
Ainda que estivesse registrada a marca "informe publicitário" acima da "manchete" publicitária (em família tipológica que, em minha opinião, não era claramente diversa da usada nas notícias), a capa promocional de domingo passado usurpou o jornalismo e ofendeu o leitor.
Já basta a praga da sobrecapa, que atrapalha a leitura, mas ao menos não se confunde com o noticiário.
A logomarca do jornal é sagrada, não pode ser tomada emprestada para promover nenhuma propaganda. O preço a pagar depois pode ser muito maior do que o recebido do anunciante agora.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Pesquisa italiana


Pesquisa mostra que quase 70% dos italianos acham que os jornalistas mentem

Redação Portal IMPRENSA

Uma pesquisa telefônica realizada com duas mil pessoas pela empresa italiana AstraRicerche mostrou que 68% dos italianos consideram os jornalistas mentirosos, enquanto 60% acham que os profissionais são pouco informados e 52% acreditam que eles não são independentes.

No entanto, segundo o estudo, a maioria dos entrevistados consideram a informação jornalística indispensável; 38% deles definem a utilidade do jornalismo como "altíssima", 16% a acham "alta" e 19% "média". Somente 15% dos entrevistados consideram "pouca" a utilidade da informação, e para 12% deles não há importância.

Carlo Malinconico, presidente da Federação Italiana de Editores e Jornalistas, afirmou estar "francamente surpreso com os dados da pesquisa" - apresentado durante uma conferência em Milão da Ordem dos Jornalistas da Lombardia, região do norte da Itália. "Além generalizar, é uma pergunta fortíssima, e tem um alto percentual de italianos para os quais a leitura do jornal é fundamental", declarou.

"De fato, o julgamento social sobre os jornalistas está em contínua queda", afirmou o autor da pesquisa, Enrico Finzi, destacando ainda que "existe uma enorme demanda por boa informação", informou a agência de notícias Ansalatina.

Letizia Gonzales, presidente da Ordem dos Jornalistas da Lombardia, disse que pela primeira vez na Itália os profissionais de mídia "se deparam com uma analise científica e, de modo explícito, com os problemas do jornalismo, a partir da ótica do leitor".

 



terça-feira, 30 de setembro de 2008

Comunicação à velocidade da luz

Comunicação à velocidade da luz

Por Fabio Reynol

“O que foi que Deus arrumou?” Esta pergunta entrou para a história em 2 de maio de 1844 quando foi possível percorrer 65 quilômetros entre as cidades de Washington e Baltimore à velocidade da luz. O telégrafo, uma patente recém-registrada pelo norte-americano Samuel Morse, inaugurou naquela data o mundo da comunicação instantânea. A invenção gerou a dissociação do transporte com a comunicação de uma vez por todas e foi o gatilho de outras tecnologias que aumentaram o tamanho e o alcance das mensagens e, para alguns, encolheram o planeta.

Há quase dois séculos daquela transmissão, somos os herdeiros de suas conseqüências, entre elas, o aparato tecnológico que inclui as redes de alta velocidade (com e sem fio), os satélites, as fibras óticas, as antenas, os transmissores, os computadores e até os programas que gerenciam e movimentam as informações. Toda essa parafernália, cujo representante mais popular é a internet, foi batizada de Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) e seu advento ainda está mudando a nossa sociedade, nossa economia, cultura, maneira de interagir com o mundo e de entendê-lo.

Um dos impactos mais visíveis das TIC é a incapacidade humana de absorver o imenso oceano de informações que essas novas máquinas proporcionam. Em 2003, dois pesquisadores da Universidade da Califórnia, Peter Lyman e Hal Varian, calcularam que a internet armazenava cerca de 170 terabytes de informação. A quantidade equivale a 17 vezes o acervo impresso da maior biblioteca do mundo, a do congresso norte-maericano (Library of Congress).

Tanta informação mais frustra do que sacia as nossas necessidades, como aponta o pesquisador em ciência da informação, Cláudio Henrique Schons, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Um usuário, ao efetuar uma pesquisa na internet, tende a ficar mais frustrado pelo excesso de ‘respostas' que pela falta delas”, afirma Schons, autor do trabalho “O volume de informação na internet e sua desorganização: reflexões e perspectivas”.

O jornalista e empresário John Browning chegou a comparar a internet às bibliotecas mantidas pelos monges durante a Idade Média. Os monges eram os guardiões do conhecimento registrado nos livros mas, segundo Browning, assim como na internet de hoje, eles necessitavam de um sistema de organização para que esses impressos pudessem ser encontrados mais tarde. “Soterrados sob uma inundação de informações, os usuários de hoje têm consciência de que precisam classificá-las e interconectá-las, mas não conseguem nem controlar o seu fluxo, nem impor uma ordem”, explica o jornalista.

 

 

Cegueira informacional

Por isso, ironicamente, o efeito do excesso de informação seria a desinformação. De acordo com o filósofo e arquiteto francês Paul Virilio, conhecido por seus trabalhos sobre as novas tecnologias de comunicação e os efeitos da velocidade sobre a sociedade, há “uma temível ameaça de cegueira” provocada por um “descontrole de nossa relação com o real”. O produtor cultural Leonardo Teixeira de Mello, que estudou a obra de Virilio para uma pesquisa em Comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que não há como o usuário gerir essa quantidade enorme de dados.

Outro efeito que a moderna infra-estrutura da informação proporcionou foi o surgimento de grupos sociais antes impossíveis. “As comunidades virtuais – explica Mello - são espaços novos que só puderam surgir devido à velocidade da transmissão de dados”. Graças a essa conquista tecnológica, conceitos como de distância e fronteira estão mudando. “Perdeu-se a noção geográfica de perto e longe - conta Mello - pois esses termos não estão mais relacionados a espaços geográficos”. Baseado nisso, Virilio criou a idéia de “telecontinente” para delimitar as fronteiras virtuais que substituem as geográficas nas comunidades formadas nas redes de computadores. O pensador francês também é pai da expressão “cronopolítica” usada para designar as ações políticas que se baseiam na velocidade.

fast-food da informação

As seqüelas desse novo mundo da informação paquidérmica e veloz recaem não só sobre os que a recebem, mas também sobre quem a produz. Foi o que averiguou a jornalista e pesquisadora em comunicação social, Thaís de Mendonça Jorge, da Universidade de Brasília (UnB). Ela aplicou ao jornalismo o termo McDonaldização criado pelo sociólogo norte-americano George Ritzer. No livro A McDonaldização da sociedade, Ritzer conta como a rede de refeições rápidas tornou-se um modelo de organização para a sociedade moderna e os conseqüentes danos que esse padrão tem causado. No artigoMcDonaldização do jornalismo: o discurso da velocidade, Jorge e outra pesquisadora relatam os efeitos da chamada “ditadura da velocidade” na produção jornalística.

“O primeiro efeito é a pasteurização da notícia - explica Thaís - com poucos recursos e muito trabalho, os jornalistas não têm tempo de apurar, nem de conferir as notícias que recebem das agências”, afirma. O resultado é a publicação de textos praticamente idênticos em diferentes órgãos de imprensa. No trabalho, as pesquisadoras dão como exemplo uma matéria publicada pelo órgão oficial de imprensa do governo, a Agência Brasil, sobre o fim de semana do presidente da república. O texto foi publicado praticamente sem alterações nas versões eletrônicas do Jornal do Brasil e da Folha de S.Paulo.

Sem o devido tempo para a averiguação das informações, outra conseqüência previsível é a reprodução de erros. “O que antes chamávamos de jornalismo diário, hoje ganhou o nome de jornalismo minutista, porque o profissional tem que produzir textos em questão de minutos”, declara Thaís Jorge. Assim, os erros não só passam batido como são espalhados à mesma grande velocidade da notícia. Tudo isso, porque as notícias são trabalhadas como qualquer outro bem de consumo. “O irracionalismo da ânsia pela velocidade, por considerar a rapidez condição de sobrevivência e de lucratividade, transforma os jornalistas em trabalhadores de uma linha de montagem semelhante às de Ford e Taylor no início do século XX”, explica a pesquisadora.

Transformar jornalistas em operários de uma linha de produção é apenas uma parte das conseqüências das TIC no capitalismo contemporâneo. Para muitos analistas, a chamada economia eletrônica ou virtual, é o principal catalisador do sistema produtivo e financeiro de hoje.

Em seu último relatório, publicado em março deste ano, a Comissão Européia revelou que as TIC foram responsáveis por quase 50% do aumento de produtividade da economia européia entre 2000 e 2004. As TIC não só representam um novo jeito de se produzir e de vender, como são indispensáveis hoje à economia moderna. O economista da Universidade Mackenzie, Francisco Cassano, explica que na década de oitenta eram necessários dois dias úteis para fazer uma transferência bancária internacional e ainda não havia meios de conferir a operação. “Hoje é possível fazer isso apertando a tecla ‘enter' do computador”, compara Cassano.

O dinheiro sai do papel

O economista constata que os males econômicos também viajam mais rapidamente. No início de outubro, uma queda da bolsa de valores de Pequim foi refletida nas demais bolsas do mundo no mesmo dia útil. “Em 1982, quando o México enfrentou uma grande crise financeira - relembra Cassano - a Argentina foi afetada pela mesma crise apenas por volta de 1984, e o Brasil só foi senti-la em 1987”, diz ele.

”A velocidade também tem afetado as relações comerciais em geral. Um consumidor iraniano consegue saber o que um cidadão consome na Bahia - exemplifica ele - com isso a concorrência se acirra e é muito mais rápida”. Ao analisar a economia eletrônica, a Comissão Européia constatou que as TIC reduzem, nesse aspecto, o impacto econômico da distância e os custos do acesso à informação, alargando, assim, as possibilidades de concorrência.

Muitos já perceberam que os talões de cheque têm durado muito mais graças ao advento do cartão de débito. No Japão, celulares são utilizados para os mais corriqueiros pagamentos desde bilhetes eletrônicos de metrô, a máquinas de refrigerante e compras em lojas. Para que as transações eletrônicas confiáveis se tornassem uma realidade, porém, foi preciso toda uma tecnologia e uma infra-estrutura de comunicação que fosse veloz e inviolável. Por isso, graças às TIC, nós vemos cada vez menos a cor do nosso próprio dinheiro.

Um mundo sem papel moeda seria possível? Para Cassano, sim, contudo seria muito mais arriscado. “Em caso de uma crise grave a primeira coisa que fazemos é correr ao banco e pegar o nosso dinheiro”, diz o economista. “Se o colocamos no colchão podemos perder o seu valor de face, mas mantemos o seu valor intrínseco. Numa economia 100% virtual o dinheiro poderia virar pó com muito mais facilidade,” alerta.

Techno-apartheid

Apesar de toda essa revolução tecnológica, é bom lembrar que o admirável e paladino mundo das tecnologias da informação e da comunicação não é tão globalizado quanto se vende. A empresa de pesquisas JupiterResearch prevê que em 2011 a internet deva atingir apenas um quinto da população mundial, cerca de 1,1 bilhão de pessoas. Se considerarmos que a grande maioria desses plugados estará nos países ricos e nas camadas mais privilegiadas do restante do globo, veremos o abismo social mundial reproduzir-se e crescer com o mundo digital.

Em uma sociedade com atividades importantes galgadas no ambiente virtual, estar fora dele equivale a estar privado do exercício da cidadania. É o que o economista italiano Ricardo Petrella da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, tenta definir com o termo techno-apartheid. Petrella escreveu em seu livro Vers un techno-apartheid (Rumo a um techno-apartheid, ainda não traduzido para o português): “Assistimos à emergência de um arquipélago de cidades/regiões ricas, hiper-desenvolvidas nos planos tecnológico, industrial e financeiro, no oceano de uma humanidade cada vez mais pobre.”

 

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Papel dos jornais diante das novas mídias

O blog Periodistas 21 é mais uma boa opção de discussões sobre o futuro do jornalismo e o papel das novas mídias. Nele o jornalista e consultor de mídias espanhol Juan Varela apresenta alguns textos interessantes e que interessam bastante no debate desenvolvido em nosso blog. Confira um texto postado no dia 25/08/08.

 

La reinvención de los diarios

Todos los periodistas consultados por Ana Carbajosa para El País coincidimos: la era de la prensa tal como la conocemos se ha acabado.
"Si en algo coinciden los expertos es en que no todos los periódicos morirán. Pero también en que todos deberán transformarse para sobrevivir en una era en la que la gente, más que nunca, quiere leer historias, aunque no en los formatos que han dominado la prensa 300 años. Hay que ponerse manos a la obra ante un cambio que, dicen, no tiene por qué ser a peor".
Manos a la obra ante un cambio de paradigma que afecta al propio periodismo, a su negocio y está cambiando el ADN informativo de la propia sociedad. Por primera vez en la historia la información es abundante. Acabó la escasez. Nunca tanta gente ha tenido acceso a la información por tantos medios ni estos han sido más numerosos. La comunicación es un commodity, una materia prima de bajo coste, pero también un nuevo bien común y el nuevo escenario digital no es sinónimo de mayor calidad informativa.
El Periodismo 3.0 es una realidad con nuevas oportunidades y con la amenaza del sutil control 2.0 de la información. La interfaz sustituye a menudo al contenido y la ilusión vital denunciada por Baudrillard, Zizek o Enzensberger estrangula a menudo la realidad.

¿Qué deben hacer los diarios para sobrevivir?
Es la pregunta que cada día nos hacemos periodistas, editores y muchas personas relacionadas o interesadas en el periodismo y el negocio de la información. El negocio de la información en internet crece demasiado despacio y se reparte entre más medios. Pero además se invierte muy poco dinero del nuevo negocio digital en información de calidad.
La pregunta no es si la prensa puede sobrevivir, sino cuál es el nuevo modelo de negocio necesario para la producción de información de calidad. Que viva o no el papel es irrelevante. Lo importante es que acaba una era en la que los diarios han liderado la producción de información de calidad. Las televisiones sólo lo han hecho muy parcialmente y la mayoría nunca han conseguido la potencia informativa de los grandes diarios. Y en un negocio donde la verdadera libertad de información ha pertenecido sólo a quienes tenían los recursos financieros para pagarla. 
Unos lo han hecho con mayor independencia y responsabilidad social que otros, pero los últimos años, con la explosión de la convergencia multimedia, sus necesidades financieras, la concentración de medios y el hambre insaciable de los inversores por las rentabilidades desmesuradas han erosionado la credibilidad de los medios y su capacidad para invertir en innovación, tanto económicamente como en predisposición profesional.
Pero esa era acaba. Bienvenidos a otra de nuevas oportunidades y, como siempre, grandes desafíos y unas cuantas víctimas.
Más allá de los diagnósticos explicados en el artículo citado y en tantos otros, algunas ideas clave que guían mi trabajo sobre el futuro de la información y los medios.

Información
La información de calidad sigue siendo un bien escaso cuya producción necesita trabajo, dedicación, inteligencia, tiempo y acceso a las fuentes. El entorno digital aporta muchos elementos para satisfacer cada una de esas necesidades y el periodismo debe adaptarse a una nueva forma de trabajo donde más personas, más fuentes y el acceso a más documentación deben enriquecer la información. El periodismo de calidad seguirá siendo un bien estimable y un buen negocio.
Oportunidad: más importante que nunca. La dimensión temporal de la información siempre ha sido clave para su influencia y penetración. Ahora, además, la sincronía digital y el acceso a través de buscadores, agregadores y redes sociales altera los tiempos informativos y su manejo para conseguir la mayor visualización pública. 
Análisis: siempre ha sido un elemento del buen periodismo. Ahora es crítico. Sobra opinión, falta interpretación. Todos pueden opinar, sólo quienes conocen a fondo un tema son capaces de aportar el análisis que aporta criterios al público para manejar la saturación y evitar el ruido. 
Relatos: el periodismo sin historias no es humano. En la mayoría de los casos ni siquiera es interesante. Contar historias con el mejor estilo y aprovechando los nuevos formatos siempre será un objetivo imprescindible.
Actualización inteligente: ¿hasta cuándo será sostenible la necia carrera de la actualización de la banalidad? Los buscadores y las nuevas tecnologías tienen muchas virtudes, pero entre ellas no está el cuidado de los tiempos informativos. En la era de la saturación corremos para añadir información inocua con la que refrescar las webs y parecer los más potentes informativamente. Pero más actualizaciones no equivalen a más ni a mejor información.

Conexión
Es la mayor revolución de la era digital. Un diario siempre ha sido una comunidad o "una nación hablándose a sí misma", como dijo Arthur Miller, y Walter Lippmann fue todavía más rotundo: "La calidad de las noticias en la sociedad moderna es un índice de su organización social". Uno de los mayores problemas de los grandes medios ha sido perder esa conexión íntima, el contrato originario, con su público y convertirse en una comunidad privada de accionistas demasiado ligados a los poderes políticos y económicos. 
En la época de la modernización reflexiva, la identidad líquida y la globalización es imprescindible una nueva conexión abierta, participativa, social para llegar a desarrollar visiones de la realidad para superar el mito de la objetividad sin caer en el desespero de la irrealidad posmoderna. 
Criterio social: uno de los mayores desafíos del periodismo actual es aprender a gestionar e integrar el criterio del público. Fin de la época de los periodistas engolados que se creen oráculos del hombre común o representantes egregios de la nación o la sociedad.
El público está en el proceso de la información gracias a las herramientas digitales y debemos aprender a manejarlas para evitar la manipulación, la sordera y la tiranía de lo más visto.
El Periodismo 3.0 es un periodismo de fuente abierta, de igual a igual, p2p que crea una red social con el público más allá de los comentarios y que debe estar basada en la propia información. Para otro tipo de contenidos y usos existen lugares más apropiados que los medios informativos sociales. Pero los nuevos medios informativos serán referencia para la identidades de dominio público basadas en la información.

Multimedia
El texto ya no es el elemento fundamental de la información en los medios digitales. Incluso está perdiendo su monopolio sobre la estructura de la web a medida que el hipertexto evoluciona hacia el hipervídeo y los formatos y la visualización gráfica mejoran.
La narrativa digital es multimedia más allá de la primigenia original del texto como código de la web y de la actual tiranía totalitaria del vídeo, que durará porque la convergencia con la televisión acecha.
El uso experto de distintos interfaces y formatos para no sólo ofrecer más y mejor información, sino para dotar de distintos modos de acceso a los contenidos es una de las claves de los medios futuros.

Tecnología
La tecnología ya no es sólo un condicionante del proceso productivo de los medios. Está en su estructura genética, en la naturaleza del proceso informativo y afecta al reporterismo, el estilo, la distribución, la comercialización y el acceso a la información. Sólo nuevas redacciones más orgánicas, flexibles, conectadas, abiertas y totales integradas por nuevos periodistascon mayores habilidades y destrezas tecnológicas unidas a las tradicionales de descubridores y contadores de historias tendrán futuro.
Los medios deben ser también empresas tecnológicas si no quieren que las empresas tecnológicas se hagan dueñas de la información y la comunicación, como está ocurriendo. El problema no es la sustitución, que sería irrelevante, sino el abandono de los criterios tradicionales del periodismo –por mucho que hayan sido maltratados por los propios medios y periodistas- y su sustitución por una cultura de la información estrictamente utilitaria y comercial.
Los medios y los periodistas pueden no ser creadores de tecnología, pero están obligados a ser usuarios expertos y asumir capacidad de ingeniería (uso práctico de la tecnología) si no quieren ser desbordados por el propio público.